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Valéria Borgato não usa carro, não come carne, dispensa sacola plástica, separa o lixo e não compra nada que possa, em seu processo de produção, ter agredido fauna ou flora. Engajada, a professora está sempre em busca de informações para decidir o que comprar (ou não), e também está disposta a falar bem de empresas que atuam de forma consciente
Para isso, visita sites de Organizações Não-Governamentais (ONGs), como a Peta, que divulga, por exemplo, listas das marcas que testam cosméticos em animais. “Em determinados medicamentos, não dá para fugir disso, mas por que queimar o olho de um coelho para testar um rímel? A Natura é uma empresa que procura não testar em animais”, comenta.
Há 12 anos, a professora virou vegetariana. Por quê? Carne faz mal? Não, é por causa do desmatamento, motivo que também a está fazendo evitar comer soja. “A soja está acabando com a mata
nativa”, diz.
Quando está numa festa em que são usados descartáveis, ela usa apenas um copo durante o
evento para evitar a produção de mais lixo. Na escola em que dá aulas, faz campanha junto aos
professores para que todos levem suas canecas e não usem os descartáveis. “É um crime usar e jogar
fora. Tem professora que já aderiu ao squeeze para não precisar do copo”, comemora.
Para evitar desperdício de papel, o que sobrou do pacote de provas vira bloco de recados e rascunho.
“Já cheguei a fazer prova em papel rascunho para economizar”, conta. Na escola, pega no pé dos
alunos para reaproveitar papel. “Além da madeira que foi consumida, a fabricação do papel demanda
uma quantidade de água imensa, tratada com amônia, para deixar ele branquinho”, explica.
Sapatos e bolsas só de pano, no máximo com detalhes em couro. O sofá da casa é de couro biodegradável. Nos móveis, nada de madeira maciça, só compensados. “Quando fui comprar os móveis
procurava por madeira certifi cada e perguntava a procedência. Perguntava tanto que chegava a ser
irritante, meu marido ficou tenso”, lembra entre risos.
O prédio em que ela mora tem coletor de pilhas e coleta seletiva. Há sete anos, a professora e o marido, Paulo Durão, separam o lixo orgânico do que é reciclável. O óleo usado é armazenado e entregue em estações de reciclagem, como das redes de supermercados CompreBem ou Pão de Açúcar. Na escola em que dá aulas, participou de um projeto para transformar o óleo em sabão, e doá-lo a instituições. “Ele pode ser usado até para lavar a roupa. Todo mundo deveria fazer em casa, tem fórmulas na internet, é superfácil”, dá a dica.
Para ir trabalhar, Valéria é adepta do ônibus. “Sou do grupo ‘vida simples’. Mas reconheço que para mim é cômodo, porque moro no Paraíso (bairro da zona sul de São Paulo), a dez minutos da avenida Paulista, e vou para onde quiser de metrô ou ônibus”, observa.
Dá para ser otimista em relação ao futuro? Ela diz que pela experiência que tem como professora, e pelos vários colégios que conhece, percebe que esse tema tem sido muito debatido. “Daqui a dez anos será uma gafe uma pessoa sair da loja com sacola de plástico. Ter preocupação ecológica será um hábito como escovar os dentes. Será o mesmo que aconteceu com o cigarro, antes cool, hoje totalmente banido”, comenta. Ela acredita que esse movimento tem muita relação com os jovens que aprendem novos comportamentos na escola e acabam transmitindo o que sabem para os pais. “O adolescente é muito crítico. Tenho vários alunos engajados, eles vão fazer essa virada. Espero que a Marina (sua bebê de seis meses) já pegue essa outra fase”, diz.
Nas gôndolas
Valéria comenta que suas compras são uma expressão do que ela é. No carrinho, frutas, legumes e verduras. Ovos só os orgânicos, que são de galinhas criadas soltas, e não confinadas. O material de limpeza é escolhido com cautela. “Procuro não usar produtos fortes porque vão para a água subterrânea. Minha empregada adora água sanitária, mas eu não compro porque a toxicidade
que ela provoca é altíssima”, diz. Quando está no mercado, Valéria deixa de comprar produtos
que têm excesso de embalagem e é muito atenta aos rótulos, para checar se contêm elementos poluentes. Isopor nem pensar. “Os rótulos deveriam mostrar, além da quantidade de calorias, quanto
tempo aquela embalagem leva para se deteriorar”, sugere.
Os sacos plásticos que envolvem produtos, como algodão, pão de forma e fraldas (sim, a correria
ainda não permitiu que Valéria se desvencilhasse delas) são usados para recolher as fezes da cadela
Ganesha. “Estamos numa época complicada, não se pode pegar um produto da gôndola do supermercado sem consciência. É preciso se perguntar se precisa mesmo daquilo. Sem dúvida, é mais fácil não pensar. Quanto mais conhecimento se tem, mais infeliz você fica”, finaliza
PERFIL
Nome: Valéria Borgato
Idade: 36 anos
Profi ssão: química
Vivo muito bem sem: comer carne
Ainda não consegui abrir mão: do açúcar refinado
Nunca vou comprar: sofá de couro ou qualquer artigo de outra pele
Quando o assunto é consumo consciente, o fundamental é: conhecer a si mesmo, e se questionar: “preciso desta mercadoria?”; “ela me proporcionará bem estar duradouro a mim, ao planeta e as pessoas?”
Tenho como aliada para definir as marcas que compro: pesquisas em meios de comunicação alternativos realizados por grupos que militam em favor do meio ambiente
Tomo banho em: 15 minutos
Separo o lixo desde: 2000
Guardo óleo para reciclagem desde: 2002
Uso menos sacolas plásticas desde: sempre (fui criada em um ambiente consciente, uma época
em que ninguém falava em ecologia)
BATE-BOLA
Lê os rótulos das embalagens para ver se contêm elementos poluentes?
>> Sempre. Dou aula sobre isso...
Deixa de comprar produtos com excesso de embalagem?
>> Sim.
Usa os dois lados de uma folha de papel?
>> Sempre.
Opta por produtos regionais no momento das compras?
>> Sim.
Está disposta a pagar mais por produtos verdes?
>> Sim, principalmente agora com minha filha.
Comprar menos está associado à sustentabilidade?
>> Está associado ao autoconhecimento, à felicidade. Quem se conhece, se aceita, é feliz com as coisas simples da vida, não precisa ter carro do ano, a roupa da mocinha da novela, a TV mais moderna.
CONSUMO X CONSUMISMO
A pesquisa “Como e por que os brasileiros praticam o consumo consciente”, divulgada pelo
Instituto Akatu, aponta que 33% dos brasileiros adotam atitudes mais conscientes em seus atos
de consumo. Eles não se preocupam apenas com os impactos sobre si ou com os benefícios
imediatos, mas pensam nos impactos positivos que suas atitudes têm sobre os outros e sobre
o futuro. A questão do consumo é interessante.
Alguns acreditam que o ideal é que se consuma cada vez menos. A escritora americana Vicki Robin, líder do Simplicity Forum, aliança internacional pelas ações sustentáveis e autora do livro “Dinheiro e Vida”, acredita que o consumismo é um grande mal. Ela defende uma vida mais simples, independentemente do tamanho da cidade em que a pessoa vive, e o respeito à natureza.
Por outro lado, o economista ecológico Herman Daly afirma que o crescimento da produção é o que gera riqueza e dá às pessoas um padrão de vida. E se, hipoteticamente, as pessoas resolvessem parar de consumir? As indústrias teriam de demitir muita gente. Talvez a solução seja um equilíbrio entre o que consumir e em que quantidade.
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